MEU LIVRO - EDITORA CORPOS - PORTUGAL

sábado, 23 de junho de 2018

O Acendedor e o Candeeiro







O Acendedor de Corações
acendeu tantos corações,
até que o fogo do seu candeeiro apagou
e com o vento como açoite,
voltou para o seu leito
e dormiu como nunca antes
havia feito,
nos lençóis amassados e desfeitos...
Sonhou tantos sonhos ,
mas nenhum deles era perfeito.
Não entendia mais o que acontecia,
só sabia que nada mais sentia.
O coração adormecido,
virou pedra de gelo
e não mais se aquecia.
A neve em flocos caia
e apagava as pegadas
do último coração em que habitara.
Sentia o frio cortante
tal qual lâminas de aço,
a  perfurar-lhe a alma,
espalhando os estilhaços.
E sem ter como acender o candeeiro,
soprou nas palhas do celeiro,
e com o frio que fazia,
o fogo não mais acendia 
e o coração do Acendedor, 
não mais se aquecia.



Débora Benvenuti

domingo, 18 de março de 2018

A Razão, a Explicação e a Versão




A Razão acreditava que estava sempre certa e assim sendo, não queria ouvir a Explicação, que estava sempre tentando mudar o curso dos acontecimentos. Para a Versão, esta situação sempre gerava muitas controvérsias. Havia sempre os dois lados da moeda. Não era assim tão simples achar que a Razão sempre tinha razão, mesmo que tivesse. Havia várias versões para o mesmo pressuposto, o que gerava muitas vezes, indignação. Mas afinal, de quem era a Razão? Quem poderia estar acima dos fatos e acreditar que não houvesse outras versões, muitas vezes defendidas com entusiasmo, algumas vezes exacerbadas, mas mesmo assim, com muitas interrogações? A Explicação se esmerava em contar os fatos com a maior credibilidade. Eram detalhes minuciosos, que ela se esmerava em apresentar, numa seqüencia de fatos que deixava qualquer um na dúvida mais cruel que se possa imaginar. E havia outras versões que não deixavam dúvidas ou margem para especulações. Então, como saber de quem era a Razão? Nem mesmo a Razão era capaz de acreditar na própria razão, com tantas versões de um mesmo fato. Havia Razões e Razões, que a própria Razão desconhecia.


Débora Benvenuti

O Sussurro do Vento



Há um lugar longínquo onde apenas o vento assobia canções ao cair da tarde. Para ouvi-lo é preciso se despir de qualquer outro pensamento e apenas se entregar à magia daquele momento. São canções de amor que só o vento traz de outros lugares por onde passa. E não precisa entender tudo o que ele sussurra, pois o vento embala suavemente essas canções e apenas os sentimentos são envolvidos nessa suave sintonia. Como as notas delicadas de uma sinfonia que nunca antes foi ouvida. Ao longe,ouve-se os sons do cair da tarde, que se misturam delicadamente aquele momento de suave encantamento. É um momento delicado, onde o ocaso vai aos poços delineando as sombras da noite, que se aproxima devagar, como se também quisesse fazer parte da melodia do findar do dia. A alma se aquieta e os sons vão sumindo até que nada mais se pode ouvir.



Débora Benvenuti

terça-feira, 13 de junho de 2017

O Espectro



O Pensamento estava confuso com todos os acontecimentos que vinham se acumulando em sua mente e para os quais não havia solução aparente. Pensar se tornara algo muito difícil e doloroso, pois havia um turbilhão de decisões importantes a serem tomadas e isso requeria muito espaço no já tumultuado pensamento. As ideias iam se convertendo em ações, dominadas pelo Espectro da Morte, que se agigantava e possuía cada milímetro do Pensamento, não deixando margem para outra decisão que não fosse ela própria. O Pensamento estava petrificado pelo medo e ao mesmo tempo, permanecia no mesmo lugar, sem coragem de dar um passo sequer em direção aquele pensamento obscuro que aumentava com o passar das horas. E o Espectro ficava ali, a espera de que o Pensamento seguisse os seus passos e o conduzisse para o derradeiro final, tão obscuro quanto ele próprio. Não havia como escapar daquela cilada e apesar dos esforços que o Pensamento fazia, para não se deixar seduzir pelo Espectro, a vontade ia enfraquecendo o Pensamento e ele cada vez ficava mais fascinado pela ideia de sucumbir aquele chamado. Soluçou como uma criança, perdida no emaranhado que se tornara aquele momento de decisão extrema, sem que nenhum motivo aparente fosse manifestado em outras ocasiões. O Espectro permaneceu vigiando o Pensamento, até que em determinado momento, ele pareceu raciocinar e disse não, aquele chamado que vinha das profundezas daquela alma inquieta. Por alguns segundos, o Pensamento permaneceu confuso, diante daquela ideia macabra, que aos poucos foi desaparecendo e sumiu por completo, tão sorrateiramente como havia surgido...




Débora Benvenuti

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O Poema e o Psiquiatra




                              Resultado de imagem para psiquiatra  
Os amigos do Poema já haviam percebido que ele não andava se sentindo muito bem. Sempre que alguém lhe perguntava o que  estava  acontecendo, ele respondia - Eu não sei de nada. E não falava nada. Preocupados, os amigos então lhe disseram que procurasse um psiquiatra que sabia de tudo. Então o Poema agendou uma consulta e no dia  marcado, lá estava ele, esperando para ser atendido. Aguardou alguns instantes na sala de espera e logo foi conduzido à sala do psiquiatra. O Poema se acomodou diante do psiquiatra e este procurou deixar o Poema o mais confortável possível. Começou perguntando como o Poema se chamava e ele rapidamente respondeu:
- Eu não sei de nada. Então o psiquiatra foi logo dizendo:
- Eu sei de tudo!
- Sabe mesmo? perguntou o Poema, admirado com tanta sabedoria.
- Sim, respondeu o psiquiatra. Eu sei de tudo.
- Como pode saber de tudo, se eu não sei de nada?
- Bom, por isso o senhor me procurou. Para saber de tudo. Mas vamos começar pelo começo:
- Por que o senhor me procurou? Como posso lhe ajudar?
- Eu não sei de nada, respondeu o Poema. Quem sabe tudo é o senhor. E se sabe tudo, por que quer saber o que eu sei?
- Para que possamos encontrar o que o senhor procura.
- Mas eu não perdi nada, doutor. Eu não sei de nada, nem vi nada. O senhor viu alguma coisa?
- Eu sei de tudo. Mas tudo mesmo!
- E o que o senhor sabe? retrucou o Poema.
- Eu sei de tudo!
- Mas se o senhor sabe de tudo, porque não me conta o que o senhor sabe?
- Isso não posso lhe contar. Um psiquiatra não pode sair por ai contando tudo o que sabe. É contra a ética profissional.
-Doutor, se o senhor sabe tudo e não quer me contar, eu não tenho mais nada a fazer aqui. E saiu repetindo o que já havia dito: Eu não sei de nada...



Débora Benvenuti

sábado, 3 de setembro de 2016

O Vento e a Flor


O vento sopra devagar

e faz a flor suavemente balançar.

Suas pétalas perfumadas espalham um

aroma sedutor,

que até o vento se impregna desse aroma,

 que exala da flor.

E percorrendo os campos floridos,

por vales, montanhas e mares,

o vento carrega consigo,

mensagens de amor a um coração solitário,

que vive sonhando com a flor.

O vento sopra de mansinho,

falando com carinho,

de sentimentos serenos,

sensações tão amenas,

que fazem o coração se sentir tão pequeno.

Uma lágrima escorre e um sentimento

verdadeiro,

transforma aquele sentimento num doce

devaneio,

um amor derradeiro,

um sonho inteiro dedicado à flor. 




Débora Benvenuti



segunda-feira, 25 de abril de 2016

A Ilusão, a Imaginação e a Decepção




A Ilusão era um ser muito sensível e por ser assim, muitas vezes sentia que estava sendo enganada. Por mais que a Imaginação se esforçasse para fazê-la acreditar que tudo era possível, que até os sonhos mais distantes muitas vezes podiam se tornar reais, aparecia a Decepção, com o seu jeito amargo de ver as coisas e dizia que tudo não passava de ilusão. Desiludida, a Ilusão já não mais sonhava e quando se permitia ter um sonho, o guardava só para si, pois sabia o quanto a Decepção já a havia magoado. Muitas vezes a Imaginação povoava os seus pensamentos e e ela se deixava carregar em suas asas, por voos tão altos e por lugares jamais antes imaginados. Sentia-se flutuar no espaço e era uma sensação tão intensa, que muitas vezes se sentia bailando, como se fosse uma folha carregada pelo vento. E a folha carregava a Ilusão em seus braços, de forma tão delicada, que a Ilusão sentia que todo os seus sonhos estavam sendo realizados. Mas como havia chegado o inverno, a folha que antes fora tão verde e viçosa, agora já se sentia enrugada e seca, mas mesmo assim, insistia em bailar com a Ilusão, sob a brisa que as embalava docemente. A Imaginação falava ao vento, sobre os sentimentos da Ilusão e o quanta decepção ela já havia sofrido. Por isso, pedia a ele que continuasse a soprar, delicadamente, para que a folha, já ressecada, não se partisse e caísse ao chão. A Ilusão sofria de depressão, mas desejava que a Decepção nunca mais a encontrasse e naquele momento, o que mais desejava, era continuar sendo Ilusão.


Débora Benvenuti


domingo, 24 de abril de 2016

Convidados Invisíveis



Era uma festa esperada por cinco anos. Depois dos 80 anos, sem jamais ter comemorado um só aniversário, aquela velha senhora resolveu que queria dar uma festa, para dançar uma valsa. Aquela valsa que jamais tinha dançado: a dos seus 15 anos. E a festa aconteceu com muitos convidados. Foi um acontecimento tão emocionante, que a velha senhora decidiu que queria repeti-lo mais uma vez e mais uma vez. Agora não eram mais 80 anos e sim 90 anos de pura emoção e energia. Ninguém diria que a festa teria tantos convidados. Acontece que a maior parte dos convidados e a que mais se divertiu, desceram de dois ônibus, que estacionaram no local da festa. A própria aniversariante dançou ao som de sua música predileta, na companhia de todos os entes queridos que já haviam partido. Como eles souberam desse acontecimento? Fica aqui a suspeita: eles receberam uma visita dos parentes vivos, que foram homenageá-los no seu local de descanso e resolveram que já haviam descansado o suficiente por muitos anos e todos eles se reuniram para comemorar junto com a velha senhora aquele momento tão especial, que uniu todas as gerações, mesmo que muitos não tenham tido a oportunidade de vê-los. Se eu estava lá e vi? Não, mas com certeza, se tivesse participado, teria esbarrado em algum deles.



Débora Benvenuti

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Nada por Nada


O Nada foi muitas vezes surpreendido por Nada. Nada do que ele estivesse fazendo poderia ser explicado. O Nada era um ser enigmático e muitas vezes, inexpressivo. Quando alguém o surpreendia fazendo o que não era da conta de ninguém, ele simplesmente dizia que não estava fazendo nada. E quando não estava fazendo nada mesmo, ninguém acreditava. Então o Nada se aborrecia, pois era muitas vezes desacreditado e por este motivo,  começava a ser investigado. Era tão surpreendentes as suspeitas levantadas contra ele, que muitas vezes ele mesmo se surpreendia. Quem é que ia acreditar nele, se tudo nele representava suspeitas?  Se estivesse calado, simplesmente observando o nada que o rodeava, já era motivo para alguém se perguntar o que ele estaria fazendo. E muitas vezes ninguém conseguia que ele dissesse nada. Era Nada o tempo todo. Isto irritava muita gente. Como alguém poderia ficar o tempo todo sem fazer nada...? E o Nada não fazia absolutamente nada. Nada daquilo que as pessoas pudessem imaginar. Não fazer nada era o motivo perfeito para não precisar dar explicações, pois nem sempre elas seriam entendidas. Então, quando era pego fazendo alguma coisa, lá vinha a resposta prontinha, como sempre fazia: eu não estou fazendo nada, você também, que mal tem...?


Débora Benvenuti

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O Gavião e a Coruja




Mamãe Coruja tinha dois filhotinhos. Uma das corujinhas ela chamou de Lua, por ser menina e a outra corujinha era Ivi, um menino a quem ela dava muito atenção, por ser mais novo que Lua. O Papai Coruja muito cedo abandonou o ninho, não por vontade própria, mas porque sempre deixava as coisas para depois, cabendo à Mamãe Coruja o sustento do ninho. E assim foi por muitos anos. Mamãe Coruja era letrada. Havia aprendido a ensinar e saía do ninho várias vezes ao dia e às vezes à noite, para ensinar outras corujinhas os valores que ela também ensinava, com muito amor, às suas corujinhas. Por não existir a figura de um papai coruja, a quem o filhote Ivi  pudesse se espelhar, Mamãe Coruja sempre se preocupava em suprir qualquer necessidade de Ivi, demonstrando amor e ensinando-o a voar pelo seus próprios meios. Muitas vezes, quando Mamãe Coruja percebia que ia faltar alimento para os dois filhotes, ia vendendo os galhos do seu ninho a outros pássaros, até que seu ninho quase desabou. Então seu irmão, chamado Vivi se comprometeu a dar estudo para seus sobrinhos, pois queria que nada faltasse a eles. E assim aconteceu. Mamãe Coruja refez o ninho e titio Vivi a ajudou a dar estudo, principalmente à Ivi, pois queria que ele fosse doutor. Enquanto isso, Lua se formou na faculdade que ela escolheu e começou a trabalhar. Havia encontrado o grande amor da vida dela e do amor dos dois, nasceu Raio de Sol, que passou a ser o centro das atenções. Certo dia Mamãe Coruja caiu do ninho e fraturou a perninha. Ficou imobilizada por vários meses e Lua a cuidou com muito amor e dedicação. Então chegou o dia em que Ivi finalmente terminou sua faculdade. Agora era Doutor. Alguns meses antes de Ivi se formar, ele conheceu um Gavião fêmea e por ela se encantou. Mamãe Coruja percebeu, que dois seres tão diferentes, jamais iria dar certo, pois o gavião Bia era um ser muito sem sentimentos. Dizia à Ivi que tinha nascido para ele e o convenceu que ele não viveria sem ela. Queria construir um futuro com ele, e dizia que ficaria com ele somente porque ele havia prometido que se casaria com ela. Um dia, ela disse que ele não precisava mais de Mamãe Coruja. Poderiam substitui-la por um cãozinho, a quem dariam o nome de sua mãe. Assim, quando ele sentisse falta da Mamãe Coruja, teriam o cãozinho, a quem dariam o nome de Debra. E Ivi se preparou para um voo solitário, deixando o ninho e todos os ensinamentos que havia recebido de Mamãe Coruja.


Débora Benvenuti